quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Compondo silêncios

Sou assim: esbravejo, conto, conto mais uma vez e desabafo. Depois, reflito, reflito e reflito de novo. Isso, até que eu consiga fechar todo esse pensamento em uma frase. É assim o processo para me livrar das indignações, dos amores, das sensações e da sensibilidade em excesso.
Achei que só eu era assim. Até que li Manoel de Barros e percebi que não estou sozinha. Ele disse "eu uso as palavras para compor meus silêncios". Gente, lindo demais!
Eu uso as palavras para compor meus silêncios!

O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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Deus que me olhe!

Caroline

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